Porque
disfarçado, o racismo ainda é a forma mais clara de discriminação
na sociedade brasileira, apesar de não admitir o brasileiro seu
preconceito. "A emoção das pessoas, o sentimento inferior
delas é que é racista. Quando racionalizam, elas não se reconhecem
assim, não identificam em suas atitudes componentes de
discriminação", analisa Alcione Araújo, escritor e
dramaturgo. O brasileiro tem dificuldade em assumir o seu racismo
devido ao processo de convivência cordial que distorce o conflito.
Devido a isto, por estar dissimulado, hipócrita, é difícil de ser
combatido.
A discriminação racial está espalhada pelo Brasil.
Escola e mídia apresentam um modelo branco de valorização. O
acesso aos espaços políticos, aos bens sociais, à produção do
pensamento, a riqueza, tem sido determinado pela lógica
escravocrata. O espaço negro é reduzido. O negro é discriminado e
não é reconhecido em suas atividades.
Entretanto, as narrativas
de humilhações e dificuldades entram em choque com o fato concreto
que é a presença e importância fundamental dos negros e seus
descendentes na cultura e nas artes brasileiras. Grandes nomes como o
do escultor Aleijadinho, do autor Machado de Assis, do jurista Rui
Barbosa, todos mulatos, devem ser lembrados como engrandecedores de
nossa sociedade.
O preconceito está sempre queimando e
maltratando alguém. Note-se na atitude de Pio Guerra ao
desqualificar a Senadora Benedita da Silva, na comparação com o
mito norte-americano Marilyn Monroe; na grosseria da composição
Veja os Cabelos Dela, de Tiririca, perdoada como gracinha inocente;
ou em pesquisas informais, como a realizada entre vinte e oito
pessoas de pigmentação clara, residentes num mesmo prédio da Zona
Norte carioca: ninguém admitiu o racismo, apesar do uso de
expressões clássicas do tipo "bom crioulo", "negro
de alma branca", "é negro, mas é educado", "fulano
de tal tem cabelo duro".
A discriminação dá-se de duas
formas: direta ou indireta. Diz-se discriminação direta a adoção
de regras gerais que estabelecem distinções através de proibições.
É o preconceito expressado de maneira clara como, por exemplo, a
proibição ou o tratamento desigual a um indivíduo ou grupo que
poderia ter os mesmos direitos e o são negados.
A
discriminação indireta está internamente relacionada com situações
aparentemente neutras, mas que criam desigualdades em relação a
outrem. Esta última maneira de preconceito é a mais comum no
Brasil.
Segundo o escritor e dramaturgo Alcione Araújo, "é
espantosa a naturalidade com que as pessoas públicas, principalmente
artistas famosos, manifestam seus preconceitos. Essas pessoas parecem
não perceber o que estão fazendo e como colaboram para a
internalização do preconceito, já que suas falas são tidas como
verdades, repelidas nas novelas, multiplicadas pela mídia."
As
práticas de racismo são diversas e se apresenta de diversas formas.
Por meio das estatísticas sobre escolaridade, mercado de trabalho,
criminalidade, presença nas artes e outros pode-se perceber o
problema na prática.
Como exemplo, numa pesquisa realizada,
informalmente, entre 28 pessoas de pele branca, residentes em um
mesmo prédio da zona norte carioca, ninguém admitiu o racismo
apesar do uso de expressões como "bom crioulo", "negro
de alma branca" e outras.
No Vestibular da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, os mais de 15.000 candidatos se
depararam com um frase da prova de língua portuguesa que trazia
preconceito de cor explícito. A frase "Ela é bonita, mas é
negra. Embora negra ela é bonita" gerou protestos por parte de
alguns candidatos, que se sentiram constrangidos, e membros do
Movimento Negro Unificado - MNU que alegaram o constrangimento que a
questão submeteu aos candidatos tornando desigual a competição e
moveram uma ação encabeçada pelo Conselho Estadual dos Direitos do
Negro que se orientam pela Lei 7716, que pune com pena de um a três
anos de reclusão e multa, os crimes resultantes de discriminação
ou preconceito de raça, cor, étnica, religião ou procedência
nacional.
Há também um dificuldade do negro no acesso aos
espaços políticos, aos bens sociais, à produção do pensamento, à
riqueza. A sociedade tem sido, apesar dos mais de 100 anos da Lei
Áurea, regida por uma lógica escravocrata e machista.
A
desigualdade racial brasileira é denunciada pela pesquisa da
Federação do Órgão para Assistência Social e Educacional - FASE,
que traz índices que levam à conclusão de que a qualidade de vida
da população negra está próxima a dos países mais pobres. As
famílias negras ainda são marginalizadas no processo produtivo,
sendo assim os seus filhos também são marginalizados. Desta forma,
no momento em que a criança deveria estar na escola ela está na rua
procurando sobreviver. De 2000 menores carentes, conforme o UNICEF,
1600 são negros.
Tratando especificamente do mercado de trabalho,
inúmeras são as atitudes racistas que acabam dificultando a
inserção do negro em áreas que exigem maior especialização. A
exigência de "boa aparência", o assédio à mulher, a
ocupação de cargos inferiores, a remuneração diferenciada do
negro em relação ao branco nos mesmos cargos, a violência física
(que chega a ocorrer em alguns casos) são exemplos do
problema.
Iniciativas para diminuir e extinguir o racismo são
necessárias para a sociedade brasileira, principalmente do auxílio
da escola, mídia e universidades.
A empresária Cátia Lopes de
Souza fundou a revista black People com o intuito de falar de negros
e para negros tentando atenuar o racismo e interferir no destino do
povo. Dentre as concepções racistas vistas e vivenciadas por Cátia,
ela relata a visão do brasileiro: "O negro é exótico, como um
animal para ser observado, mas não serve para ter aproximação".
Estudado como um segmento da sociedade que se atrasou na dinâmica da
nossa sociedade, sendo por isso parte do passado e do progresso, se
marginalizou na medida em que não se integrou. Somente através da
integração (biológica, social e cultural) o negro poderia se
incorporar ao corpo da nação brasileira.
Fonte: http://www.zemoleza.com.br/trabalho-academico/outras/colegial/condicao-do-negro-no-brasil-atual/